Publicado por: gfrochao | Agosto 12, 2013

“Artes e Oficios”

Elas próprias sabem apenas que aprenderam com as mães e as irmãs mais velhas, a quem sucedeu o mesmo desde remotas gerações, como se o bordado fizesse parte das coisas essenciais da sua vida.

Com suas hábeis mãos e coração abnegado à arte plasmada num pano de linho, fazem emergir profusamente, da agulha e dos negalhos de linha, tão belas e exuberantes obras-primas.

O engenho do matiz, do ponto caseado e do bastido vão dando luxuosa elegância e candura fina aos trabalhos árduos para sufragarem miseravelmente o sustento da prole.

É vê-las, aos magotes, todas alinhadas ao mesmo ritmo, junto às suas tépidas habitações de colmo e basalto, ora cantando; ora em pias orações ou até em declamações líricas, sempre resignadas ao testemunho visível em tão belas obras de arte que há-de perpetuar invariavelmente a sua memória.

Rosto rasgado pela incúria do tempo: sol que escalda a alma; nevoeiro que arrasa o coração e frio que destrói a chama fugaz deste pastor.

Ei-lo a trilhar as sinuosas serras do Pico Ruivo; do Pico do Areeiro – sempre com sua vara de conde, qual âncora para os inusitados precipícios e escarpas arrepiantes da montanha.

Nada pode temer o pastor, porque ele é a simbiose perfeita da obra do criador – a serra e os seus enigmas são a catarse mais eloquente deste homem guardião do gado que há-de matar a fome daqueles que ele tanto ama e por tanta labuta.

São estas mulheres, de açafate à cabeça, eivadas das mais belas flores policromadas, que, descendo encostas a baixo apiam-se até à cidade – de sorriso lânguido espelham, na aurora do dia, o ávido desejo de venderem as suas flores.

Saias irisadas de fundo vermelho: capas e corpetos de baeta vermelha e carapuça à cabeça vão assim compostas, segundo determinação camarária – mas fazem-no com vaidade e presunção.

Calcorreiam as artérias da cidade, sempre tendo como mira das atenções os bolsos recheados dos transeuntes forasteiros: olha as rosas!! Olha as camélias!!! Olha os “namedeixes”!! e na lengalenga do floreado mais uma jornada se passou – é tempo de contar os tostões para comprar uns tantos quilos de massa para colmatar a sequiosa  da família.

Belas e sumptuosas peças feitas em obra de vime fazem as delícias de quem visita a nossa pitoresca Camacha.

Estes artefactos caseiros remontam aos tempos da colonização, embora tenham se afirmado, na Camacha, no ano de 1812. A partir daí, a audiceia teimou em se afirmar na esteira internacional – e o nome da nossa terra passou a prefigurar num mundo cada vez mais global.

 

Textos da Autoria: Alexandre Rodrigues


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