A ilha da Madeira, descoberta em 1419 por João Gonçalves Zarco, Bartolomeu Perestrelo e Tristão Vaz Teixeira, vinte e cinco anos depois já produzia bom vinho, pois o navegador veneziano Cadamosto, ao passar por lá em 1445, ao serviço do Infante D. Henrique, provou o Malvasia e achou-o muito bom.
Nos terrenos saibrosos e virgens da ilha a casta de uva «Malvazia» frutificou admiravelmente e produziu o vinho que, segundo o escritor micaelense, Gaspar Frutuoso, que em 1590 publicou o livro SAUDADES DA TERRA, «é o melhor que se acha no universo e se leva para a Índia e outras partes do mundo».
A ilha da Madeira ficou famosa por esta preciosidade, cobiçada por reis, príncipes e nobres, que mereceu ser citada por grandes nomes da literatura mundial.
A Camacha, sendo uma freguesia do interior da ilha, não oferece condições climatéricas para a exploração da cultura vitivinícola; contudo, o vinho sempre foi companheiro assíduo das vivências do nosso povo, quer nas fainas agrícolas , quer nas Festas e Romarias ou até nos períodos ou ciclos festivos, como é o caso da Festa (Natal); Espírito Santo; Santos Populares, entre outros.
Devido a esta contingência, a nossa preocupação incidiu, grosso modo, em indagarmo-nos qual seria a relação etnográfica mais próxima com a cultura do vinho? e a resposta, inexoravelmente, teria de estar naquilo que somos exímios obreiros – a obra de vime! e, neste particular, aquilo que se coaduna mais com o vinho são os garafões empalhados a vime.
Fomos, assim, entrevistar um dos poucos mestres qua ainda trabalham na arte dos vimes, no Rochão. De seu nome, José de Sousa Vieira Cardoso – 63 anos, natural do Rochão, filho de António Vieira Cardoso e Maria de sousa Barreto, Saiu da escola com 11 anos, e, desde então, começou a trabalhar na obra dos vimes, interrompendo somente quando foi à tropa.
O entrevistado começou por nos falar das fases do empalhamento do garrafão, a saber:
1ª fase: escolher o vime mais miúdo, deitar o vime na água de molho durante uma hora, depois deixar de um dia para o outro, para o vime ficar mais macio;
2ª fase: “agarramos numa gavela e amarramos com uma liaça e começamos a fazer a trança em vimes”, seguido do empalhamento do garrafão. Este processo vai até à base do garrafão;
3ª fase: a base do garrafão é feita à parte, havia uma base em madeira que o entrevistado chama de “fica pé”, com um molde redondo, era entrelaçada o fundo do garrafão; colocado na base do garrafão e amarrando em forma de trança todos os vimes que vêm do “gargalo”;
4ª fase: Asa – é torcido um vime entrelaçado com outro da mesma forma, dando aspeto de corda, é preso no gargalo do garrafão e na lateral.
Os utensílios utilizados para o empalhamento do garrafão eram basicamente os seguintes: navalha- aguçar o vime; podão – mondar; passador – furar para arrematar e, finalmente, a massa – bater o vime, todos estes utensílios eram usados na obra de vimes em geral.
Disse-nos ainda o informador que “estes garrafões, de tamanhos diferentes (5, 10, 25 litros), eram usados pelas pessoas para guardar o vinho, na época do Natal (Festa), nas sementeiras, na chamusca”,etc.
Era muito comum e frequente (pelo menos duas vezes ao ano) virem borracheiros do Norte da ilha, sempre acompanhados do seu búzio, a fim de aprovisionarem as tabernas do Rochão e não eram poucas, segundo apuramos eram estas as tabernas à cerca de 60 ou mais anos: Portela; Gregório; José Barreto; Canadinha; São Martinho; João Junior; Rajão; João Rodrigues; Venda de Joaquim da Mota (Inferno) e taberna da ti Laranja, situada nas Figueirinhas, na parte mais alta do Rochão. O ambiente destas tabernas era deveras curioso, sendo que em muitos casos estas tabernas eram partilhadas pelas merciarias: os homens apenas ficavam nas tabernas e as mulheres nas merciarias – não sendo permetidas quaisquer tipo de “misturas”. Muitas vezes, os homens permaneciam até longas horas, ora cantando o charamba, ora jogando à bisca ou até, em certos casos, jogando o “Jogo do Pau”, muito usual entre os pastores do Rochão e Ribeiro Serrão, e o vinho, era sempre um fiel companheiro destas folganças.
Segundo alguns relatos do Sr. Abel Gouveia, este lembra-se dos borracheiros, após fazerem as contas nas vendas e, já embriagados, no regresso a casa, acabarem por se envolverem em desacatas brigas, e até partiam as varas de conde que os acompanhavam no transporte dos borrachos com vinho.
Recolha: Alexandre Rodrigues, Ricardo Baptista
Texto: Alexandre Rodrigues
Fotos: Délio Góis




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