Publicado por: gfrochao | Abril 10, 2009

Artesanato – Obra de Vimes na Camacha que Futuro?

Sector dos vimes a caminho da extinção
Poucos ganhos e escassos incentivos afastam os jovens do artesanato, em especial do vime; os mais velhos aguentam-se, mas o futuro é preocupante

O artesanato vive dias difíceis na Madeira – e não é só por culpa da crise económica mundial. Os ganhos são poucos, os incentivos praticamente inexistentes e as perspectivas de futuro incertas, por isso são cada vez menos aqueles que querem fazer vida na produção de peças de vimes, nos bordados e nas tapeçarias, já para não falar no pequeno artesanato de menor tradição e impacto na sociedade madeirense. Os jovens voltam-lhes as costas e são os mais velhos, seja por amor à arte ou por inexistência de alternativas de ganhar a vida, que vão assegurando a continuidade destas actividades tradicionais que dão fama à Região.

O vime é o sector que mais vem sentindo as consequências negativas. Por envelhecimento, doença e morte, o número de artesãos tem vindo a diminuir nos últimos anos, até porque, como já se referiu, não se têm registado novas entradas de jovens na profissão. Para além disso, a própria matéria-prima também já começa a escassear.

Esta realidade é reconhecida por José Fernandes, um dos mais antigos artesãos do sector em actividade. Há mais de 40 anos que se dedica a criar peças de vime, sendo há um quarto de século uma das referências da oficina que funciona na cave do Café Relógio, na Camacha. “A malta nova não está interessada nisto e até têm uma certa razão, porque além de não se ganhar muito, também não há incentivos para o artesanato”, aponta em tom crítico, lembrando que “até um prémio de qualidade, que era dado pelo IBTAM no Natal, também já acabou”. Depois, há ainda a questão da Segurança Social, pois o regime que abrange o artesanato é especial, semelhante ao que se pratica na agricultura e por isso oferecendo menos regalias: “Desconta-se menos, mas nem sequer dá para ter baixa”, vinca José Fernandes.

“Isto também não ajuda a chamar a gente nova”, acrescenta, garantindo que, actualmente, “não deve haver mais de 20 artesãos do vime na Camacha e todos têm idade para cima dos 40 anos”.

Apostar na inovação e criatividade

Depois, “também já começa a faltar matéria-prima para se trabalhar”. É que o cultivo do vime na freguesia da Camacha, que há alguns anos assumia uma dimensão considerável, está agora reduzido “a dois ou três produtores do Ribeiro Serrão”, explica José Fernandes. A juntar a isso, também a matéria-prima que chega do norte da ilha, nomeadamente de Boaventura, São Jorge e Santana, tem vindo a reduzir drasticamente nos últimos anos.

Com este cenário, o artesão camachense considera que o futuro das obras em vime “pode estar em risco”. Contudo, recusa-se a baixar os braços, sustentando-se na esperança de que “com inovação e criatividade o artesanato há-de sobreviver”. É com base neste raciocínio que, de há algum tempo a esta parte, tem vindo a reutilizar garrafas de vidro nas suas obras. “É uma forma de reciclagem, em vez de mandá-las para o lixo.” José Fernandes sugere que uma das possibilidade de fomentar nos jovens o gosto pelas obras de vime seria a introdução de cursos de formação nas escolas profissionais ou nos centros de extensão rural. “Quem sabe se não se aproveitaria alguém para dar continuidade à produção de artesanato”, questiona-se. Ele próprio, lembra, já deu formação em cursos promovidos pelo IBTAM e por algumas empresas. “Mas não resultou, porque como não há incentivos os jovens não vêem futuro nisto”, fundamenta.

Peças que já não se fazem

Na cave do Café Relógio funciona uma das duas oficinas de vimes (a outra fica a caminho do Santo da Serra) ainda existentes na Camacha. Dos seis artesãos que ali trabalham, apenas dois pertencem aos quadros da empresa. Os outros são industriais por conta própria (entre eles o já referido José Fernandes), que utilizam o espaço para trabalhar, comercializando as suas peças em regime de exclusividade para a casa.

Num andar superior estão expostas peças de vime que já não se produzem. É o caso de uma cadeira e de uma mesa, resultado de um rebuscado e minucioso trabalho de um artesão entretanto já retirado da actividade por motivos de doença e de idade. Como reconhece a gerência do Café Relógio, aqueles são mesmo os últimos exemplares, porque ninguém teve a preocupação de aprender a dominar a técnica e o estilo do artesão no fabrico das peças de mobiliário.

A gerência do espaço reconhece que o negócio baixou nos últimos anos, especialmente depois da adesão ao euro. A exportação, que teve uma dimensão significativa no passado, agora está praticamente reduzida a zero. Mesmo assim ainda se regista, de quando em vez, encomendas de algumas peças, sobretudo mesas e cadeiras, por parte de turistas estrangeiros e continentais.

A gerência admite ainda que a crise e a concorrência de outros mercados, em especial o chinês, fizeram com que, nos últimos dois anos, as receitas baixassem cerca de 20 por cento. Há uns anos, recorda-se na Camacha, qualquer turista que visitasse a loja do Café Relógio levava consigo uma recordação em vime; agora, os que compram alguma coisa são uma excepção.

Pagamento à peça

Luísa Silva é uma outra artesã que trabalha o vime na oficina situada no centro da vila da Camacha. Esteve uns anos em casa “para tratar do filho pequeno e da mãe que já estava velhinha”, mas há cerca de dois anos pediu para voltar.

“Moro num apartamento e não dá para fazer este trabalho em casa”, explica, acrescentando que todas as peças que produz são vendidas ao Café Relógio. “Levo uma hora para fazer um cesto como este, mas se for maior claro que demora mais algum tempo”, explica. Em média, trabalha sete horas por dia, o que significa que produz outros tantos cestos dos mais pequenos por cada jornada de trabalho.

“O pagamento é feito conforme as peças que faço e sempre vai dando para sobreviver”, explica a artesã, que revela ter aprendido a trabalhar o vime aos dez anos. Curiosamente, a matéria-prima que usa na concepção de alguns dos cestos até nem é vime. “Chama-se hastes de São José”, explica, acrescentando que a planta, apesar de resistente, é mais fácil de trabalhar que o vime. “É uma boa alternativa e fica bonito.” O que Luísa Silva também teme é que não haja alguém que venha dar continuidade ao trabalho que faz. “Antigamente, não havia uma família na Camacha que não tivesse alguém a trabalhar no vime, mas agora ninguém quer saber disto”, vinca.

Bordados mal pagos e com falta de formação

Há muito que as bordadeiras se queixam do baixo preço a que é pago o seu trabalho. A presidente do sindicato, Ana Paula Rodrigues, reconhece que o sector continua a ser “pouco reconhecido” em termos de pagamentos e admite que não existe uma relação equitativa com o lucro que as casas de bordado acabam por beneficiar.

A dirigente teme, por outro lado, que o futuro do bordado possa estar comprometido, atendendo a que “a grande maioria das bordadeiras são pessoas já com alguma idade”, porque as mais novas, que têm frequentado cursos de formação, “depois já não querem bordar, porque a actividade não dá nenhum atractivo”. É verdade que o desemprego noutras áreas “tem trazido mais jovens para os bordados”, contudo Ana Paula Rodrigues diz que muitas dessas pessoas “não têm a formação”, aspecto que, alerta, pode ocasionar “uma baixa na qualidade do bordado”.

A representantes das bordadeiras, Maria Ganança, é mais uma voz que se levanta para contestar os problemas no sector. “Já fizeram o enterro aos vimes e à tapeçaria, e se não tomarem medidas de protecção, os bordados vão pelo mesmo caminho”, opina a bordadeira.

“É preciso dar incentivos às jovens, porque há delas que têm gosto por isto mas não ganham o suficiente para sobreviver”, defende Maria Ganança. A experiente bordadeira não tem dúvidas que o bordado madeirense “tem futuro”, porque “no mundo não há nenhum igual”.

“Mas é preciso incentivos”, vinca.

Fonte: Diário de Notícias da Madeira


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