Publicado por: gfrochao | Novembro 3, 2008

O Pastor

 

A diminuição significativa e o envelhecimento acentuado dos pastores, torna difícil manter em prática este ofício ancestral.

 

Álvaro de Jesus Ferreira tem a pele da face curtida por muitos anos de vida ao ar livre. Começou desde pequeno a pastorear as ovelhas nas serras. Nasceu no Sítio do Rochão, já lá vão quase 70 anos. Foi vendo e aprendendo com os mais velhos desde bem cedo até ganhar a responsabilidade e autonomia para liderar, sozinho, o seu rebanho na serra. Conta-nos que chegou “a cuidar perto de 500 ovelhas, mas agora(…)”. O “agora” suou tristeza disfarçado por um arrepio, enquanto rebaixava o rosto.

 Os rebanhos nas serras perdem a toda a hora terreno e o pastor, esse, predomina nos olhos do cego e o seu valor pronuncia-se em vozes ocas daqueles que se julgam sábios deste ofício.

Acredita que hoje, vive-se melhor, mas “os serões passados nas casas de abrigo em volta de tons do charamba e de um copinho de vinho seco”, são recordações que mais do que relembrar, não podem ser esquecidas.         

Na pastorícia não há horários a cumprir, há sim o dever de acompanhar o rebanho a bom pasto, desde o raiar do sol até bem perto de anoitecer, sujeitando-se muitas vezes ao frio e à chuva.

O trajo de pastor caiu actualmente em desuso, no entanto o Sr. Álvaro Ferreira, prima em manter no seu vestuário diário o casaco e o barrete de orelhas de lã, calças de sereguilha, uma bolsa para guardar as suas ferramentas e a imprescindível vara de conde. Referiu que foi acostumado a usar também uma camisa de linho, e umas botas chãs com sola de borracha, mas com o passar do tempo, deixou-se acomodar com novas modernices. Aos ombros, havia ainda, pastores que transportavam uma manta de lã, que os protegia nos dias mais gélidos.

Aprendeu a arte de tosquiar, observando outros pastores enquanto “agarrava nas ovelhas para não barafustarem”. A tosquia das ovelhas, além de ser um factor económico relevante, em tempos mais proeminente do que agora, é também necessário às ovelhas, para que suportem melhor os dias quentes de Verão. Costuma tosquiar as ovelhas na “altura das tosquias”, entenda-se nos meses que principiam o Verão. São raros os pastores que ainda utilizam as velhas tesouras amoladas à “pedra de amolar”, recorrendo às novas maquinarias que tornam este processo mais rápido.

Poucos são aqueles que neste século ainda se ocupam das lides pastorícias, pois já não há quem se obrigue facilmente a uma profissão rica culturalmente, mas que se torna pobre e dura aos olhos dos que assistem ao eclipse deste ofício. A luz parece ofuscar-se no tempo, mas à porta, o candeeiro predomina aceso…

 

Recolha: Grupo de Folclore do Rochão

Colectores: Regina Quintal, Nelson Baptista e Élvio Neves

Texto: Regina Quintal e Élvio Correia

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Responses

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